Canção Zocratíssima
eu rindo
renascendo
sentindo frio nas pontas dos dedos dos pés
eu andando por tanto lugar
sem tentar
eu consegui
imaginar você por aqui
tombando os galhos das árvores
fazendo dançar as grades dos pés de tantas frutas doces
não há outro recanto, meu amigo
não há outro lugar em que você pudesse estar
seu grito é tão agudo no meu átrio
que seria esquisito
se eu não te risse nas cachoeiras
se ocê não fosse tão bonito
e não avoasse tão alto cada vez que quisesse se enterrar
antônio carlos é de rua sem saída
cimentos rupestres
(pra não dizer paralelepípedo
que é palavra-trambolhão
coisa-mesma que não se diz)
vidros quebrados de futebol
e muito amor
um amor antigo
de vó
tão forte
tão azul
e tão anzol
mas voa, meu amigo
um amor que voa que nem o nosso
voa que nem a gente
com tanto verso
e acorde fisgado
com tanta infrutescência roxa
pendurada nos ramos mirradinhos
em que cê tem mania de sentar
como se tivesse o não-peso de um inseto
ou do amor seco e molhado
fazendo cócegas nas amoras do nosso pé
o fato é que essas ruas são assim há muito tempo
antes que eu lhes incomodasse os passeios pra ler caetano, clarice, beauvoir e manoel
antes que houvesse uma casa vermelha demais
pequena por fora
e infinita por dentro
antes de haver cachorros e parentes
e carros estacionados
as ruas já não tinham saída
nunca foi fácil cruzar a cidade
assim como não se arranca fácil um chapéu de pierrô
assim como não se arrancam pedaços de carne que são a gente
e eu posso ver esses pedaços reunidos
virados num zocrato só
um ser anterior a toda essa confusão
como é que se diz?
gabriel!
sua graça de risadas mudas
e cabelos cacheados
balança essas redes com intimidade
come essas batatas fritas
chega à casa da bivó
sente saudade
só você
pra ser tão lindo
quanto esse lugar
meu amigo feito de carbono
e o dobro de ar
você é sopro que bicho solta
e matéria-de-poesia-prima pra planta amassar seu pão
é meu passarinho verde
cujo assobio não se reprime
dióxido de carbono
gelo seco
sublime
06-06-2010
domingo, 6 de junho de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)


9 comentários:
quem é gabriel?
belo! belo!
"Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples"
E também gostei das suas leituras :)
talvez o mais bonito!
num sei...
vc me surpreende sempre!
LIndoo!!
Lindas letras arrumadas, bagunçadas
Lindas imagens criadas invluntarias em minha cabeça, da sua vida, passando pela minha.
Linda emoção que parece que tu sente, mas que eu nem posso imaginar que senti perto.
Lindo Gabriel que em mim nao existe, mas é tão forte aqui que acabo por sentir.
Obrigada pela visita,
Beijos
"Como é que se escreve reveillon?"
Foi um prazer incomparável para mim ler em primeira mão - coisa rara - em voz alta - coisa mais rara ainda - este belíssimo exemplar de ode. Em prosa.
que inveja!
invejo os poetas.
e aí gostou do marcos lá?
beijos
o que permito, mudo, que os outros me desconstruam parece tão grande quanto o imensurável nada. Mas nunca acabo, pois secretamente mãos estabanadas (muito como as minhas) rebordam-me de forma mais caótica e bela - muito mais do que seria sem esses dedos que tecem.
"Eu amo e odeio - disse Susan - desejo uma só coisa. Meus olhos são duros (...) Embora minha mãe ainda tricoteie meias brancas para mim e barras de avental e eu seja uma criança, eu amo e odeio."
O importante disso tudo é que amo.
quanto amor! que bonito! acorda mais um dia, acorde fisgado.
Postar um comentário